Visita a Mário de Andrade

Em novembro de 1941, Aurélia Rubião escreve a amiga Henriqueta Lisboa e narra a visita a casa de Mário de Andrade: 

Estava saindo para a casa do Mário quando recebi sua carta. Fui com Maria, que tinha imensa vontade de conhecê-lo. Chovia muito, mas formos assim mesmo, porque ele estava nos esperando. Achei sua casa um mundo! Livros, quadros, esculturas, santos e por toda parte mil cousas de arte e de curiosidades. Na sala um piano de cauda e uma almofada prosaica em cada cadeira. levou-nos para o estúdio que é um verdadeiro museu, tranquilo e longe do barulho das crianças, por tem também sobrinhos em casa. Contou-nos, encantado, que tem uma recém-nascido. Achei-o feliz, bonito e gordo, diferente. Interessando que só ao chegar na minha casa é  que me lembrei que ele não estava com os mesmos dentes, e era este o motivo de achá-lo diferente e com uma boca muito bonita quando falava (não tenha ciúmes). Disse ter gostado imensamente, ou melhor, usando a expressão dele, enormemente dos seus versos para criança e acha que seu livro será um livro definitivo no gênero. Pediu-me que lhe dissesse que recebeu sua carta e não respondeu ainda por falta de tempo e, para justificar, mostrou-me as cartas que recebe por dia (!!). [...] Pregou-nos um sermão sobre arte moderna e se interessou pela arte de Maria. Gosta também (que homem completo!) de desenhos de criança e tem uma bela coleção, que é para eu ver na primeira oportunidade. Convidou-me para ir fazer estudos em sua casa, pois tem ótimos livros sobre o assunto. conheço alguém que ficaria com inveja... Enfim, foi uma tarde agradável, como você havia previsto.

SOUZA, Eneida Maria de (Org.). Correspondência Mário de Andrade & Henriqueta Lisboa. São Paulo: Peirópolis/ Edusp, 2010, p. 175.