Crítica

Em novembro de 1941, Aurélia Rubião faz uma visita a Mário de Andrade. Assim ele narra o evento à Henriqueta Lisboa, amiga em comum de ambos: 


Logo em seguida o próprio Mário escreve a poeta narrando ele mesmo o evento:
A  Rubião esteve aqui em casa mais uma pintora. Lhe disse umas coisas desagradáveis, não sei se ela terá gostado muito. Acho o caso dela muito difícil de solucionar bem. Nesses casos de aprendizado, pra se realizar, não "modernisticamente" (palavra que não tem mais sentido) mas em normalidade contemporânea apenas, ou é oito ou oitenta.  A Rubião em parte por questões de família, em parte pela prisão mental do estádio pictórico de Belhorizonte, em parte por covardia própria, está querendo ficar pelo quarenta-e-dois... O resultado é que ficará no oito em vez de atingir o oitenta que é apenas uma normalidade. Ela precisava se jogar às mais bárbaras e audaciosas experiências de pintura, como experiência. Sim, cubismo, expressionismo, surrealismo podemos dizer que já passaram. mas a Rubião é que não passou por tudo isso, de formas que desejando pintar uma pera, simplesmente como é mais atual, cai forçosamente nas maneiras e faz fria e boba escola-de-belas-artes. Ela está num estado profundamente angustioso, estreito e sem ar de... de virgindade estética. Não só não sabe o que quer fazer como não o pode saber, por não saber simplesmente o que é arte. Enfim: como estádio do ser ela se conserva na franca nebulosa extra-artística da mocinha de colégio de freiras que pinta. Pinta mas não está no domínio da arte, você me compreende? Ninguém se acha, em períodos de transição social como o nosso, sem se perder primeiro. E isso, em nossa terra e costumes, ainda é tão difícil pra uma mulher, mesmo se tratando de se "perder" esteticamente...
( SOUZA, Eneida Maria de (Org.). Correspondência Mário de Andrade & Henriqueta Lisboa. São Paulo: Peirópolis/ Edusp, 2010, p. 175, grifos do autor).